24 Novembro 2006

Refletindo a minha Prática


O Seminário Virtual tem sido uma tarefa exaustiva, porém que tem trazido muitas aprendizagens. Trabalhar em grupo à distância é um grande desafio. Conciliar idéias, horários, acertar diferenças, enfim, nada fácil. Mas conforme fomos avançando no estudo das metodologias científicas, especialmente o nosso tema, da pesquisa-ação, comecei a refletir minha própria prática e de como posso classificá-la como pesquisa.
Paulo Freire enfatiza a necessidade de uma reflexão crítica sobre a prática educativa, sem a qual a teoria pode se tornar apenas discurso e a prática uma reprodução alienada, sem questionamentos.
Passos para uma pesquisa-ação segundo Nunan:
1º PASSO: Identifique uma questão que possa estar trazendo dificuldades na sua prática pedagógica;
2o PASSO: Realize a coleta dos dados preliminares;
3o PASSO: Formule uma hipótese;
4o PASSO: Realize as mudanças necessárias;
5o PASSO: Avalie os efeitos das mudanças;
6o PASSO: Compartilhe suas conclusões com outros colegas.
7o PASSO: Planeje outras intervenções.

1º PASSO: Identifique uma questão que possa estar trazendo dificuldades na sua prática pedagógica;

Sempre tive uma preocupação em dar significado às leituras e produções textuais dos alunos. Queria que percebessem a literatura como uma reescrita do mundo, uma recriação da vida e a produção textual como uma forma de expressão de cidadania, exercitando de fato a comunicação escrita.Geralmente ao devolver o que os alunos escreviam , jogavam fora com a sensação de que tinha sido apenas uma obrigação a mais. Somente eu, professora lia os textos. Portanto eu queria conseguir dos alunos uma motivação maior para a leitura e escrita.

2o PASSO: Realize a coleta dos dados preliminares
Através da observação pude constatar que todas as vezes que levava os alunos ao laboratório de informática o entusiasmo era grande. O uso da tecnologia funcionava como um estopim para acender o interesse. No entanto isso não bastava. Era preciso ter uma proposta, pois diante do computador a tendência à dispersão era uma realidade.
Que proposta daria conta de canalizar esse interesse para o meu objetivo de estimular a leitura e a produção textual?

3o PASSO: Formule uma hipótese

Estudei durante bastante tempo uso de ferramentas que a Internet poderia oferecer para uso educacional. Meu interesse estava voltado para o uso interativo da web, pois percebi que se os alunos utilizassem o computador apenas para receber informações, não faria nenhuma diferença de estar diante da TV como um consumidor passivo, nem diante do professor que despeja conteúdo. Fui descobrindo ferramentas como os chats, fóruns, correio eletrônico.Então um dia, num Seminário de tecnologia Educacional, descobri o BLOG. Senti na hora que poderia ser a ferramenta por excelência para o que eu pretendia colocar em prática.Busquei ajuda com outros colegas da rede, a fim de debatermos as suas possibilidades de uso educacional.Utilizei o fórum do Portal Educacional Educarede para colocar essa minha ansiedade em descobrir mais.Através do fórum, agendei um chat aberto a interessados no assunto, no mesmo portal, com dia e hora marcados. Isso durante as férias de 2004. No chat, vários professores compareceram.Tive um retorno positivo. Descobri que assim como eu, outros colegas também tinham as mesmas expectativas e dúvidas. Também descobri que a ferramenta ainda era bastante nova em relação ao uso educacional, havendo poucas experiências realizadas.A partir do chat, sentimos necessidade de nos juntarmos para continuar a discussão e os estudos sobre a ferramenta. Então criamos uma lista de discussão no yahoo: o Grupo Blogs Educativos( hoje contando com cerca de 200 participantes).


4o PASSO: Realize as mudanças necessárias

Senti que não poderia saber mais sobre a operacionalidade do blog se não colocasse em prática o seu uso.Então no início de 2005 resolvi iniciar a experiência com alunos, aplicando com duas turmas de oitava série.Tinha consciência de que o blog era apenas uma FERRAMENTA para desenvolver aquilo que tinha em mente: desenvolver e dar mais significado às competências da leitura e escrita. Que projeto seria lançado? Qual a proposta para o blog?

Primeira certeza: precisava partir da proposta da escola, abordando o tema gerador: a família.Segunda certeza: precisava contextualizar o tema numa situação vivida concretamente pelos alunos.Era o inicio do ano letivo em 2005. Iniciávamos as aulas abalados por uma forte seca. Todo o Rio grande do Sul estava sofrendo os efeitos ambientais, econômicos e emocionais da estiagem. Eu não poderia desprezar essa realidade. Então tive o insight: iniciaria analisando a problemática utilizando a literatura. Escolhi a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
Através dessa obra poderíamos associar o sofrimento da família de Fabiano com o das próprias famílias dos estudantes e dos nordestinos. Poderia abordar também a leitura e produção textual.Lancei propostas no blog para serem realizadas pelos alunos.
Entendi que somente a publicação dos trabalhos não surtiria o efeito desejado e procurei utilizar a potencialidade maior da ferramenta: a interação.
Busquei parcerias, a fim de que os alunos pudessem socializar os conhecimentos, exercitando assim a utilização da escrita e a construção coletiva do conhecimento, conhecendo outras realidades, além da sua através do contato com pessoas de outros lugares geográficos.
Divulguei o projeto no Portal Educarede, no fórum, na listas de discussão.
Imediatamente nosso trabalho foi divulgado numa reportagem da Revista Educarede. Descobri que nosso projeto fazia parte ainda de uma experiência pioneira.Cerca de um mês depois, fomos convidados para realizar um vídeo para o programa Salto para o Futuro da TV Escola. Fiquei muito apreensiva. Tentei me esquivar, argumentando que ainda estávamos no início de uma experiência com a ferramenta. Houve insistência por parte das professoras Iris Tempel Costa e Beatriz Magdalena Corso, professoras pesquisadoras do Laboratório Cognitivo da UFRGS, dizendo que era exatamente isso o importante. Que a ferramenta fosse discutida durante o processo de realização do projeto.Em junho a TV Escola nos visitou e realizamos a experiência de produção do vídeo, o que foi um momento privilegiado também para avaliação por parte dos alunos.
Embora a escola nunca tivesse colocado nenhum impedimento para a realização do trabalho, mesmo porque a informática educativa faz parte do projeto político pedagógico, tive de enfrentar resistências em relação ao novo. Nosso projeto era mais conhecido fora do que dentro da própria escola. Essa foi uma dificuldade encontrada. Foi preciso coragem, muita determinação e certeza dos objetivos a alcançar para poder seguir em frente. Houve quem dissesse que as aulas no laboratório eram uma forma mais light de passar o tempo. Outros achavam que ficava “feio” para a escola, expor a linguagem dos alunos na internet, ainda de forma imperfeita.
Depois de estudada a obra de Graciliano Ramos, percebemos que poderíamos continuar com outras, dentro da mesma temática. Encontrei alguns contos e contatei com os autores solicitando autorização para a publicação e intercâmbio com os alunos.
Foi muito estimulante esse contato com os escritores, incentivando a leitura e escrita.
Encerrado o primeiro trimestre, mudamos de tema gerador na escola e procuramos obras literárias que abordassem as novas temáticas.
Continuamos com intercâmbio com outras escolas, escritores e outros professores e visitantes.Cada vez mais, a preocupação dos alunos com a escrita foi aumentando.Ao perceberem que suas produções eram lidas por muita gente e não apenas pela a professora, buscavam aperfeiçoar seus textos e escrevendo com mais motivação. Também o índice de leitura aumentou. Percebi que meus objetivos estavam no caminho de serem alcançados. No entanto tinha a consciência de que era apenas um passo de formiguinha. O blog não era a solução mágica para todos os problemas, mas uma iniciativa para conseguir pequenos avanços. Quem sabe os frutos viriam mais tarde.

5o PASSO: Avalie os efeitos das mudanças

Durante o processo, eu, os alunos e outras pessoas envolvidas participaram avaliando a experimentação da ferramenta e a realização do projeto.

“Estamos no final de mais um ano letivo e deste modo, encerrando nossa obra com o blog Vidas Secas. Neste ano aprofundamos muito mais nosso conhecimento com a ajuda da informática. Participamos de um documentário com a tv escola sobre a formação da nossa obra que foi e continuará sendo uma experiência para nossa vida.Tivemos contato com vários autores da literatura moderna e trabalhamos com suas obras, além de falar sobre a seca que afetou o RS no início deste ano.Então, encerrando por aqui gostaríamos de agradecer a todos que de um modo ou de outro nos incentivaram a manter essa obra viva e nos ajudaram com seus comentários e de modo especial à TV Escola, aos autores e as escolas de Santa Catarina e Portugal.A vocês um grande abraço das alunas... Milena T, Vanessa e Juliana. ;) - Turma 82”

“Eu aprendi com o blog a interagir com pessoas de outras cidades, estados, e até de outros países.Lá eu publicava a minha idéia e pessoas do mundo inteiro podiam ler. O trabalho foi tão bom que chegamos de aparecer na TV Escola, em rede nacional.Eu gostei de trabalhar com o blog por que se sai um pouco da sala e vai num lugar onde o aprendizado é mais moderno. Ricardo – Turma 81”


Os blogs desse ano foram um grande aprendizado, tanto para os alunos quanto para os visitantes do nosso site. O blog ajuda de certa forma a melhorar a leitura, todos dão sua própria opinião em relação a diversos assuntos comentados no blog.O blog é comentado por diversas pessoas de diversas línguas.O blog é também um meio diferente de estudo, onde os alunos não ficam só numa sala de aula escrevendo e prestando atenção no professor, mas sim, dando sua própria opinião com a ajuda do professor e ampliando seu conhecimento de um jeito diferente e até mesmo divertido.
Fernanda Dagnese e Gabriela Lima – Turma 82

6o PASSO: Compartilhe suas conclusões com outros colegas

Nossa experiência foi divulgada de diversas formas, em várias reportagens de portais, revistas e jornal.Além disso no mesmo seminário onde conhecemos a ferramenta, levamos de volta o resultado, participando de um relato de experiência.Divulgamos também em uma videoconferência com a Universidade do Minho, de Braga, Portugal, em que participamos colegas do Brasil (Santa Catarina, Minas Gerais e Rio Grande do Sul) com as quais realizamos os intercâmbio.

7o PASSO: Planeje outras intervenções

Realizei outras experiências com o uso de blogs. O Blog Vidas Secas- da ficção à Realidade foi contemplado com o 4º lugar em um concurso de Blogs entre Brasil, Espanha e Portugal. Em 2006 retomei a proposta do blog com outras turmas no blog Ficção Versus Realidade. Também criei o blog Blogosfera Marli (http://blogosferamarli.blogspot.com/) reunindo todos os meus blogs e outras experiências com outras ferramentas da tecnologia.. a fim de socializar experiências com colegas da rede.

Na primeira reportagem que divulgou o projeto, exatamente 18 dias depois da primeira postagem no blog, foi escrito: “A avaliação dos alunos da 8ª série de 2005 pela professora de Português Marli F. vai contemplar a participação deles no blog criado por ela. Marli está trabalhando a relação entre a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e a falta de chuva no Estado(RS). "Neste ano, aqui no meu Estado, vivemos uma situação difícil, que é a seca. A vida de todos acabou sendo afetada com a alteração do clima", relata. A idéia do projeto, que está apenas começando, é fazer uma ponte entre a ficção, por meio de obras literárias como o livro e filme Vidas Secas, com a realidade observada na localidade ao redor e a do Nordeste. "Como é minha primeira experiência com blog, preciso concentrar esforços não apenas na prática, mas também na reflexão sobre essa prática para que seja bem sucedida e possa estimular futuros desdobramentos", explica.”

Após realizar os estudos sobre a metodologia da Pesquisa-Ação passei a entender que de certa forma eu estou na categoria de professor pesquisador.Sempre me preocupei de refletir e melhorar minha prática, pesquisando novas ferramentas e fazendo experimentações. No entanto sempre o fiz de forma intuitiva, sem preocupação com o rigor de pesquisa científica.

Seria isso tembém pesquisa-ação???

11 Novembro 2006

Seminário Virtual

Estamos organizando um Seminário Virtual. Confesso que estou esgotada de ficar noites adentro lendo , interagindo , pois só temos esse horário para encontrar os colegas de grupo. Fazer um curso à distância, trabalhando em grupo é um desafio e tanto , é um vencer desafios, é matar um leão por dia. Conciliar interesses, trocar saberes, usar o jogo de cintura até mesmo com coisas que a gente discorda, são aprendizagens que vamos somando. Optamos por criar uma wikispaces para ir organizando nossas pesquisas sobre o tema: metodologia da Pesquisa-ação. Sobre o assunto, posto depois, mas pra definir um conceito, creio que a pesquisa-ação envolve uma resolução de um problema coletivo, em que pesquisador e participantes estão ambos envolvidos e comprometidos com a reflexão e a mudança da prática.
 
BlogBlogs.Com.Br